O trabalho em home office para parte dos empregados da Caixa completou 1 ano. A importância de manter o grupo de risco afastado das atividades presenciais é incontestável e foi uma reivindicação da Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa (Fenae) e demais entidades representativas para proteger os trabalhadores. No entanto, especialistas explicam que o trabalho remoto gera inúmeros desafios e impactos para os trabalhadores, inclusive na saúde.

Para Luci Praun, pós-doutora em Sociologia e pesquisadora em saúde dos trabalhadores, o home office, dentro do contexto da pandemia, tem minado a fronteira entre casa e ambiente de trabalho, entre tempo de descanso e tempo de trabalho. “E as mulheres, nesse sentido, são as mais atingidas. Porque se dividem em dar conta do trabalho, das metas que estão estipuladas, dar conta de fazer a comida, de cuidar das crianças – inclusive num contexto em que parte dessas mulheres estão com os filhos em casa”, avaliou. “Colocam a gente em um ambiente de pressão, de jornadas infinitas, um sentimento de incapacidade de dar conta de tudo e de estar sempre em dívida e sempre atrasada com as demandas do trabalho e da vida, em geral, já que o trabalho passa a invadir todos os momentos da vida privada”.

A saúde física dos bancários também sofreu impacto. Uma pesquisa realizada pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), por solicitação da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf/CUT), mostra que sintomas como ansiedade, dificuldade em dormir, cansaço, dores musculares e nas articulações aumentaram ou surgiram após a adoção do trabalho remoto. 24,9% dos bancários que responderam à pesquisa passaram a sentir dores musculares (costas, lombar, pescoço) depois do home office. 16,4% adquiriram dores nas articulações como pulso e ombros. 

Segundo a pesquisa, tudo isso está relacionado às condições de trabalho, das instalações inapropriadas ou improvisadas das residências para o trabalho, como uso de mesas, cadeiras e outros equipamentos inadequados. 1/3 dos respondentes declararam que o banco não forneceu equipamentos para realização do trabalho remoto. 

Precarização do trabalho – Para Luci Praun, embora o home office seja uma medida de proteção ao trabalhador dentro do contexto da pandemia, o regime também se converteu em uma “espécie de laboratório da precarização do trabalho”. Ela destaca que o teletrabalho criou um ambiente propício para a implementação de algumas medidas que o Governo já pretendia fazer antes da pandemia. Ela cita uma – a Instrução Normativa nº 65, de 30 de julho de 2020, que estabelece um conjunto de regras para o teletrabalho nos órgãos e entidades integrantes do Sistema de Pessoal Civil da Administração Federal (SIPEC).

 “Quando a gente analisa essa instrução normativa percebe que o trabalhador passa a ser avaliado pela quantidade de coisas que entrega, o conjunto de demandas que cumpre, e fica muito evidente que o objetivo é intensificar o trabalho, aumentar a produtividade e o controle sobre o trabalho”, avalia Luci Praun. 

Outro ponto destacado pela socióloga é a transferência dos custos do trabalho para os trabalhadores. Em setembro do ano passado, o Ministério da Economia divulgou que o Governo Federal economizou cerca de R$ 1 bilhão com o trabalho remoto de servidores públicos entre os meses de abril e agosto de 2020. “Fica muito evidente que parte significativa deste 1 bilhão é de transferência de custos para os trabalhadores. Ou seja, se gastou menos com água, com esgoto, com comunicação, com energia elétrica, mas alguém está pagando por isso porque as atividades continuaram a ser feitas”, disse.

A pesquisa do Dieese confirma a análise de Luci Praun. As transformações nas relações de trabalho devem permanecer mesmo após a pandemia, também por interesse dos bancos, já que representam potencial transferência de custos fixos e riscos da empresa para o trabalhador. Junto à consolidação dos canais digitais, essas mudanças devem gerar significativa redução de despesas com aluguéis, energia, transporte, processamento de dados, serviços de terceiros, manutenção e conservação de bens, entre outros. 

Na avaliação da pesquisadora, o governo está se aproveitando deste contexto de pandemia, em que grande parcela dos servidores públicos está em home office, para criar um programa com impacto a longo prazo. “O que se pretende, depois que parte do que foi experimentado ao longo da pandemia, sob o pretexto da proteção aos trabalhadores, é consolidar uma prática de trabalho que amplia o processo de precarização”, avaliou.

Praun explica que existem outros elementos que serão percebidos a médio prazo pelos trabalhadores, que é o resultado do isolamento social.  E ele está atrelado a uma lógica que tem a ver com o sentido das medidas neoliberais. “O trabalhador deixa de ser considerado como um sujeito coletivo, pertencente a uma categoria, e toda relação passa a ser individual, o que enfraquece esse trabalhador na forma de reação e mobilização coletivas. E a coletividade é a única forma de reagir a esse conjunto de ataques que os trabalhadores vêm sofrendo e na acentuação da precarização do trabalho em meio a pandemia”, alertou.

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