A indefinição sobre a extensão do auxílio emergencial pode trazer consequências sociais ainda mais drásticas para o Brasil. Com o agravamento da pandemia de Covid-19, a perda de renda e poder de compra com o fim do benefício; a elevada taxa de inflação dos alimentos e o desemprego em alta, podem levar ao aumento do número de pessoas em situação de extrema pobreza.

“A Fenae, centrais sindicais e outras entidades associativas e sindicais têm defendido a continuidade do auxílio desde o final do ano passado, porque sem o benefício o país viverá uma crise ainda maior. A pandemia está longe de acabar e o governo não está preocupado com a pauta social, em garantir a proteção dos milhões de brasileiros que estão sem renda, a preocupação do presidente Bolsonaro e do ministro Paulo Guedes é com a agenda privatista, em entregar o patrimônio público do país aos interesses privados”, alerta o presidente da Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal (Fenae), Sergio Takemoto.

Nesta quinta-feira (3), o ministro Paulo Guedes admitiu à imprensa a possibilidade de retomada do auxílio, mas somente para metade dos beneficiários. Segundo declarou, dos 64 milhões de pessoas que receberam o auxílio emergencial, 26 milhões já estavam cadastradas em outros programas sociais, como o Bolsa Família e que o foco será nas pessoas que não recebem outras ajudas do governo.

Enquanto o governo protela uma decisão sobre o assunto, os indicadores sociais e econômicos mostram que a crise se agravou e tem atingido fortemente a população mais pobre.

De acordo com  o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), em apenas três anos o percentual da população brasileira afetada pela insegurança alimentar moderada e aguda aumentou 13%. Em 2016, eram 37,5 milhões de brasileiros que comiam menos do que era necessário para ter uma vida saudável. Em 2019, esse contingente subiu para 43,1 milhões. Isso significa que o Brasil, segundo maior produtor agrícola do mundo, tem mais de 20% da população em situação de insegurança alimentar.

Segundo o Dieese, essa situação tende a se agravar.  Em 2020, a alta da inflação foi de 4,52%, a maior desde 2016 (6,29%). A tendência é de alta no mês de janeiro. Produtos como carne, arroz e feijão devem puxar para cima os preços.

O preço da cesta básica deve subir em todas as capitais do país. Em 2020, a variação foi de 17% a 32%, muito maior do que a inflação oficial de 4,52 %.  O comprometimento da renda para comprar uma cesta básica, para quem ganhava um salário mínimo no ano passado (R$ 1.045,00), foi de 52%. Ou seja, para comprar a alimentação básica, o trabalhador gastou em média R$ 543,40.

Retiradas da poupança

Segundo dados divulgados pelo Banco Central, os saques líquidos da poupança superaram os depósitos em R$ 18,154 bilhões. Isto representa o maior volume de retiradas em um único mês desde 1995. O resultado também é reflexo do fim do pagamento de auxílios emergenciais, que estavam depositados em poupanças sociais digitais. Conforme o BC, os saques da poupança somaram R$ 263,062 bilhões em janeiro, enquanto os depósitos totalizaram R$ 244,908 bilhões no período.

“ Além do cenário econômico degradante, com a pandemia fora do controle, com o desemprego em alta e, principalmente, com o fim do auxílio emergencial,  impulsionando os brasileiros a recorrerem as suas reservas, um outro fator relevante refere-se a perda de rendimento registrada pela poupança, impactado principalmente pelo aumento dos preços de alimentos no segundo semestre do ano passado e pela diminuição da taxa SELIC para o menor nível histórico – atualmente a taxa Selic está em 2% ao ano”, explica  o economista do Dieese, Sérgio Lisboa.

Além do fim do auxílio emergencial pago a trabalhadores que perderam renda na pandemia, outro fator que explica a saída recorde de recursos da caderneta de poupança em janeiro são gastos tradicionais de início de ano, como de despesas escolares, pagamento de impostos e outras despesas como férias ou compras de Natal.

“A preocupação é que sem o auxílio emergencial ou outro benefício que possa socorrer as pessoas atingidas pela crise econômica, esses saques continuem elevados e descapitalizem a poupança, trazendo consequências prejudiciais como a concessão de crédito e investimentos em habitação, por exemplo”, diz Sérgio Lisboa.

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